Sexta-feira, 25 de Maio de 2012

Índice do nº 5

ACTAS DO ENCONTRO PESSOA/CIORAN

Emil Cioran e Fernando Pessoa, salto no absoluto
e “fuga para fora de Deus”

Paulo Borges

Tempo e Palavra em Cioran
J.M. Costa Macedo

Utopia em Fernando Pessoa e Emil Cioran
José António Miranda Moreira de Almeida

Acerca do Conceito de Normalidade em CioranElsa Cerqueira

RESENHA

Video Nasties - Um Breve Olhar
Luís Baptista

FlorbelaAnamarija Marinovic

ANÁLISE

Jean-Claude Michea: O Socialismo Contra a Esquerda
Alain de Benoist

O Complexo Industrial-Militar no século XXI:
a reestruturação produtiva pela via da biotecnologia
Douglas Rundvalt & Edu Silvestre de Albuquerque

CULTURA

Entrevista sobre a "escrita feminina" com Lídia JorgeFábio Mário da Silva

ACTUALIDADE

Portugal: Crise, Ideias, Estado e FuturoManuel Brás

O Fim da Farsa da Solidariedade EuropeiaRenato Epifânio

GEOPOLÍTICA & RELAÇÕES INTERNACIONAIS

Novamente é Tempo de LusotropicalismoAntónio Marques Bessa

Globalização, Política Internacional e Luso-Brasilidade no século XXISandra Balão

Ex-Jugoslávia: a regra da Europa ou a excepção dos Balcãs?Nuno Morgado

Sobre o estado actual do continente africano e algumas estratégias de saídaRui Martins

Suíça e União Europeia: o peso da cultura políticaSónia Pedro Sebastião

A política de avanço da República da Índia no contexto da Guerra Fria: da inactividade hábil no Tibete à captura da Índia PortuguesaOleksandr Lenko

Quinta-feira, 19 de Janeiro de 2012

Agostinho da Silva para além da Esquerda e da Direita, uma visão de futuro

A direita me considera como da esquerda; esta como sendo eu inclinado à direita; o centro me tem por inexistente. Devo estar certo. - Agostinho da Silva, Cortina 1 [inédito]

Renato Epifânio - Se há alguém que, no século XX português, transcendeu a fronteira entre “esquerda” e “direita”, esse alguém foi, mais do que qualquer outro, Agostinho da Silva. Decerto, não foi o único. Muito longe disso. Poderia apontar o exemplo de (quase) todos os outros grandes filósofos portugueses, dado de que todas as mentes minimamente complexas – como são, em geral, as dos filósofos – nunca encaixam nessas etiquetas de “esquerda” e de “direita”.

Só, ao invés, as mentes mais simples, mais incipientes, são apenas de “direita” ou de “esquerda”. As mentes mais simples e aquelas mais complexas que, por razões nalguns casos intangíveis, sucumbem ao complexo de parecerem apenas de “esquerda” ou de “direita”. Poderia dar aqui também, decerto, múltiplos exemplos – de um lado e do outro. Mas é um facto que dada a hegemonia cultural da “esquerda”, ou do que se convencionou chamar de “esquerda”, no século passado – em particular, na segunda metade, – há bastantes mais exemplos de “complexados de esquerda”. Noutros tempos terá acontecido o inverso – a História, como se sabe, tem uma estrutura pendular.

Qualquer pessoa, minimamente isenta, pode atestá-lo: há pessoas que, com o horror de assumir posições identificáveis como de “direita”, assumem, nalguns casos de forma particularmente hilariante, posições mais identificáveis como de “esquerda”, não se coibindo até de denunciar publicamente como de “direita” algumas posições de outros que eles, em privado, reconhecem ser também as suas. Eu, pelo menos, conheço algumas pessoas assim. Só não me peçam para dar exemplos.

Em Agostinho da Silva, pelo contrário, o que encontramos é uma completa ausência de complexos nesse campo. E por isso podemos vê-lo assumir, por vezes em imediata sequência, posições tidas como mais “esquerda” e de “direita”. E isto, saliente-se, sem qualquer incoerência. Agostinho da Silva foi decerto um filósofo paradoxal – fazendo, nalguns casos, gala disso –, mas não foi, de todo, um filósofo incoerente. O que aqui procuraremos será, precisamente, dar exemplos disso. Recorreremos, sobretudo, a algumas entrevistas suas em que, mais naturalmente, poderemos encontrar essas sequências. E cingir-nos-emos à sua visão da nossa História mais recente – aquela que, por ser mais recente, mais azo dá a perspectivas contrastantes…

1. A Primeira República e o Estado Novo.

Cem anos após a sua instauração, o regime que vigorou até 1926 continua a dividir opiniões, mesmo entre aqueles que consideram que a instauração da Primeira República foi inevitável, dada a decadência do regime monárquico.

Obviamente, essa avaliação não se faz só em relação ao regime deposto como também, senão sobretudo, em relação ao regime que lhe sucedeu: o Estado Novo. E dizemos sobretudo porque uma das suspeitas que mais se têm generalizado nestas últimas décadas, mesmo entre historiadores, é a seguinte: “quem avalia negativamente a Primeira República só pode estar a caucionar o Estado Novo”.

Ora, se há alguém insuspeito de ter sido salazarista ou adepto do Estado Novo, esse alguém foi Agostinho da Silva – basta lembrar que Agostinho foi perseguido pela polícia política, esteve preso, no Aljube, e foi como que “obrigado” a sair do país em 1944, só regressando em 1969#. Isso não o impediu, porém, de tecer as maiores críticas à Primeira República e até de, retrospectivamente, reconhecer o papel do Estado Novo na preservação de Portugal, como se depreende desta tão longa quanto elucidativa passagem:

“…nós, os jovens, tínhamos a ideia que de facto a República estava em grande desordem, e continua a ser a ideia de hoje. A ideia de que naquela altura Portugal estava em risco de desaparecer do mapa, como nação independente. Na Europa, depois da Grande Guerra, a situação era de cobiça das colónias portugue sas. Evidentemente que elas estavam em risco. O próprio Portugal, pela desordem económica, pela desordem política, por tudo o que acontecia cá dentro — embora muita gente afirmasse que tudo estava bem — estava em risco de, provavelmente, se perder.

De maneira que a gente pensa, que a história, de vez em quando, tem os remédios meio brutos para que as coisas se encaminhem até ao ponto que se quer. E o que se levanta perante uma reflexão da história é, por exemplo, o problema de saber se as coisas sucedem apenas porque sucedem, porque houve algo que iniciou a his tória e depois jogou por aí adiante ou se, na realidade, há qualquer espécie de plano ou de pensamento coordenado que a leva por determinados caminhos e a lança em determinados acontecimentos.

O que é certo é que vem a Ditadura militar, incompetente — eles não tinham jeito para governar o país. O problema principal era por um lado o das finanças, o da economia portuguesa, mas sobretudo o das finanças, e também o problema da ordem pública. Depois surgiu um professor da Universidade de Coimbra, professor de finanças, que já tinha feito alguns comentários sobre a situação em Portugal, que foi chamado para remediar o país e que teve a frieza de alma e de certo modo a coragem de recusar o primeiro convite, porque achou que as condições propostas não eram as que ele queria e só voltou quando lhe deram todas as condições para governar à vontade. E então dedicou-se a isso, a pôr as finanças em ordem, o que não foi difícil, bastou diminuir ainda mais as possibilidades de vida do povo portu guês para que as contas do Estado ficassem em dia e se pudesse até colocar dinheiro em Londres para render. E por outro lado ele tinha uma noção da ordem pública que não queria saber se tinha de sair de dentro das pessoas para fora ou de fora para dentro. Votou o segundo ponto, uma repressão extremamente dura... Mas a verda de é que vendo a coisa a voo largo, Portugal chegou depois, em 1974, pelas várias espécies ou pelos vários aspectos que a ditadura militar, depois civil, foi tomando, a uma posição, em que encontra, ao sair de tudo isso, um mundo completamente diferente daquele que teria em 1926. Chega ao mundo em que já não há essa cobiça do território de África e em que a própria situação levou a que os territórios africa nos se tornassem independentes e, portanto, eliminassem esse risco quanto à situa ção de Portugal continental. Por outro lado ainda, o que aconteceu foi que sob o aspecto propriamente europeu, a Europa é já diferente, com uma Espanha também diferente e em crise, de maneira que não havia nenhum risco imediato para Portu gal do lado de fora. Podia haver risco do lado de dentro, mas do lado de fora tinha desaparecido.

Então demarquei-me inteiramente da linha ditatorial. Hoje talvez tivesse percebido melhor. Suponho que hoje percebo melhor e, embora discordando da Ditadura, vejo que ela deu a possibilidade a Portugal de sair da crise em que podia ter naufragado durante a Primeira República e chegar até aos tempos de hoje em que as coisas irão naturalmente de outra maneira.”

2. A Descolonização e a Revolução de Abril.

É hoje relativamente consensual entre os historiadores que a guerra colonial foi a razão maior da Revolução de 25 de Abril de 1974. Se não houvesse guerra, é até provável que o próprio regime fizesse a “transição pacífica” que ocorreu na vizinha Espanha. A meu ver, é de resto, mais do que “provável”. Se não houvesse uma guerra a bloquear a situação, seguramente que o próprio regime teria feito essa “transição pacífica”.

Obviamente, isso não é ainda por inteiro reconhecido porque ninguém já hoje qualifica a descolonização como “exemplar” – pelo menos em público, sob pena de cair no mais extremo ridículo. Mesmo aqueles que qualificam a Revolução de Abril como uma “Revolução sem sangue” sabem bem a quantidade de sangue que se derramou nas várias guerras civis que eclodiram em virtude de tão “exemplar” descolonização. É verdade que em Portugal não chegou a ocorrer – por pouco – uma guerra civil, mas isso, atendendo a todo o sangue derramado em África – e em Timor – não nos pode aliviar a consciência…

A visão mais benigna que a historiografia oficial nos tem dado é, com algumas variantes, a seguinte: “A descolonização que se fez foi a possível, nas circunstâncias; para Portugal, tratou-se sobretudo de virar a página: acabar com a Guerra, encerrar de vez o ciclo do Império e apostar de novo na Europa”. Sob esse ponto de vista, muito estrito, para não dizer estreito, é inegável que a Revolução de Abril foi bem sucedida. Portugal, de facto, apenas num ano reverteu por inteiro uma História de mais de meio milénio.

Se personificássemos a história dos povos – no caso, do povo português –, poderíamos justificar essa reversão como “o justo descanso do guerreiro”. Depois de mais de meio milénio a navegar pelo mundo, nada mais aparentemente justo, com efeito, do que regressar a casa e pousar os remos e as armas. E, tranquilamente, esperar pela hora da morte… Para mais, com os famosos “fundos da Europa”, poderíamos até almejar por uma velhice, senão abastada, pelo menos não miserável. Um fim talvez demasiado burguês para uma história tão nobre. Mas, porventura, um fim que não nos envergonharia por completo. A não ser, claro, que consideremos esta história muito mal contada…

Agostinho da Silva

Mal ou bem – mais bem do que mal, a meu ver –, foi esse o caso de Agostinho da Silva. Antecipando a previsível catástrofe, tentou, ainda nos anos sessenta, avançar para uma verdadeira Comunidade Lusófona. O Estado Novo não lhe deu ouvidos. A Revolução em curso também não:

“…a ideia geral talvez fosse, e eu próprio a defendia e procurei no princípio da guerra em Angola, junto de autoridades portuguesas, por exemplo de um embaixador no Rio, pôr-lhes essa ideia na cabeça... fazer das colónias e de Portugal uma comunidade de língua portuguesa. Ideia que expus a Franco Nogueira quando vim a Portugal, em 1962, convidado pelo Governo português para discutir o estatuto do Centro de Estudos Portugueses em Brasília. O ministro Franco Nogueira, ministro dos Estrangeiros nessa altura, recebeu-me e pudemos conversar com toda a franque za, perguntando-me ele se eu achava que a ideia de uma comunidade luso-brasileira seria bem recebida no Brasil, respondi-lhe que não. Exactamente por causa da atitu de que Portugal estava a tomar com as colónias, com Angola naquela ocasião, o Brasil de nenhuma maneira ia aceitar isso, pois recordava-se muito bem que tinha sido colónia. A meu ver, Portugal tratou o Brasil muito bem quando foi colónia e se não tivessem sido os portugueses, o Brasil não se teria constituído. Mas o Brasil muitas vezes achava que os portugueses tinham tido defeitos na colonização — a meus olhos esses defeitos não existiram, embora houvesse muita coisa individual de tipo geralmente conotado com a colonização rapinante dos países. Mas não me parecia que naquela altura aceitassem uma coisa dessas. Mas havia algo que achava que aceitavam e que tomava a liberdade de expor a Franco Nogueira, que de resto tinha tido relações com um grande amigo meu, o poeta Casais Monteiro, e, portan to, eu podia falar com uma certa liberdade, por isso disse-lhe que o que me parecia que se devia fazer era uma comunidade luso-afro-brasileira com o ponto africano muito bem marcado. Quer dizer, se pudesse, eu poria o ponto central da comunida de, embora cada um dos países tivesse a sua liberdade, a sua autonomia, em África, talvez Luanda ou no interior de Angola, no planalto, de maneira que ali se congre gassem Portugal e o Brasil para o desenvolvimento de África e para que se firmasse no Atlântico um triângulo de fala portuguesa — Portugal, Angola, Brasil — que pudesse levar depois a outras relações ou ao oferecimento de relações de outra espé cie aos outros países. Então Franco Nogueira disse-me que isso era completamente impossível, que Portugal não se podia dividir e que não havia nada a fazer nesse ponto. De maneira que eu continuo a pensar que, aquando da revolução em 1974, se poderia talvez ter tentado isso. No entanto, é muito possível que a situação tivesse avançado tanto, que a guerra tivesse castigado tanto, quer os africanos, quer os portugueses, que o que cada um queria era ver-se livre do outro. Portanto, não havia já nenhuma possibilidade de fazer senão o que se fez, uma descolonização decerto apressada, mas trazida pelas circunstâncias; parecia que não podia ser de outro modo e, no entanto, talvez a coisa pudesse ter tido outro caminho. Quanto a Timor, achava que podia ter sido incluído num quadro futuro de uma comunidade de língua portuguesa e desempenhar um papel importante.

Não, não me pareceu que a revolução de 1974 tal como estava a ser feita, conduzisse a alguma coisa em que valesse a pena colocar essas ideias. Pareceu-me que era um pronunciamento militar sem grande largueza política (…).

3. A Criação da CPLP e “a Pátria de todos nós”.

Não podendo ter sido concretizado com a Revolução de Abril, o sonho de Agostinho da Silva – o da criação de uma verdadeira Comunidade Lusófona – teve um primeiro impulso político-institucional em 1996, data da fundação da CPLP: Comunidade dos Países de Língua Portuguesa.
Passados quase quinze anos, a CPLP mantém-se ainda muito longe do sonho de Agostinho da Silva – por manifesta falta de visão estratégica dos vários países que a compõem –, mas nem por isso deixou de ser um horizonte de futuro – como eu próprio procurarei sustentar na obra “A Via Lusófona: um novo horizonte para Portugal”
.
As nossas ditas “esquerdas” e “direitas”, por manifesto recalcamento histórico e falta de visão estratégica, continuam a apostar tudo na integração europeia, mas é evidente que o caminho de Portugal nunca poderá estar apenas na Europa – antes com um pé no espaço europeu e com o outro pé no espaço lusófono, até para reforçar o nosso peso relativo no espaço europeu, cada vez mais insignificante. Agostinho da Silva foi, a esse respeito, particularmente claro – ouçamo-lo uma vez mais:

“Do rectângulo da Europa passámos para algo totalmente diferente. Agora, Portugal é todo o território de língua portuguesa. Os brasileiros pode rão chamar-lhe Brasil e os moçambicanos poderão chamar-lhe Moçambique. É uma Pátria estendida a todos os homens, aquilo que Fernando Pessoa julgou ser a sua Pátria: a língua portuguesa. Agora, é essa a Pátria de todos nós.”

in Finis Mundi nº 1, Janeiro-Março 2011.

O caso extraordinário de Knut Hamsun

Alain de Benoist - Knut Hamsun é um mistério. Embora as suas obras tenham sido traduzidas para o francês, embora tenham sido alvo de várias adaptações ao cinema e à televisão, embora – ao contrário de muitos outros – os seus livros não sejam “nem datados nem obsoletos” (Hubert Nyssen), é ainda ignorado pelo público francês.

Laureado em 1920 com o Nobel da literatura, frequentemente comparado a Dickens, Ibsen ou Gorky, Hamsun não era, contudo, só o renovador da língua norueguesa nem o maior escritor norueguês do século XX – o que já seria muito. No prefácio à edição americana de Fome, Isaac Basgevis Singer (que traduziria Victoria para yiddish) escreve que “toda a literatura moderna deste século encontra aqui as suas raízes”.

Razão pela qual é admirado e saudado por escritores tão díspares quanto Thomas Mann, Henry Miller, Octave Mirbeau, André Gide, John Galsworthy, André Breton, H. G. Wells, Bertolt Brecht, Franz Kafka, Robert Musil, D. H. Lawrence ou Jean Paulhan.

Hamsun, é verdade, opunha-se ao mundo moderno. Uma das grandes constantes da sua obra é a sua real aversão à burguesia. Desde o início que o seu realismo lírico se dirigia contra a sociedade industrial, o capitalismo, o modernismo urbano e o reinado do dinheiro. Mas seria errado vê-lo como um novelista “populista” ou um simples e bucólico apologista da terra “que não mente”.

Certo, para ele a natureza é um recurso. Mas trata-se de uma natureza selvagem, tão selvagem quanto as bestas e os homens o podem ser. E o seu estilo narrativo, herdeiro da tradição oral, é um no qual a natureza, a paisagem, os objectos inanimados, longe de interpretarem um papel meramente decorativo, interagem com comportamentos, sentimentos e ideias. Vemo-lo claramente em Pan, gloriosa história de amor que exalta a intima união entre o coração e a natureza, tornando-os em duas manifestações da mesma realidade.

“Sou realista no sentido mais estreito do termo”, dizia Hamsun, “mostro a profundidade do coração humano”. De facto, queria retratar “a vida inconsciente de toda a alma”, razão pela qual desde o início retrata a vida interior com uma riqueza e uma complexidade extraordinárias. Indubitavelmente, esta abordagem não podia parecer mais estranha ao mundo actual, onde os seres só se movem por motivos exteriores. Inconformista, indiferente a honras, saía de casa nos seus aniversários para fugir à curiosidade pública. Devido ao seu gosto, atraíam-no as pequenas comunidades rurais, como as das ilhas Lofoten da sua infância. Razão pela qual Miller o descreveu como “marginal, vadio, rejeitado, um rebelde irredutível, inflexível opositor do sistema… um aristocrata do espírito.”

As suas personagens não se movem pela indignação ou pela interacção social, mas pela tensão interior, uma complexidade avassaladora devida à sua natureza de excepções. Não se tratam de homens comuns, contudo são também heróis. Longe de pertencerem a uma única casta, na extensão a que pertencem (sem o reconhecer) a uma modernidade que criou mais ansiedades que liberdades, são seres despedaçados, normalmente solitários, repletos de dissonâncias e contradições. A sua natureza é, à partida, honesta e orgulhosa, mas abeira-se do abismo e as dificuldades que encontram são por vezes intransponíveis.

O próprio Hamsun, com 15 anos, embarcou numa vida difícil e aventureira, “endurecida pelo azar” (Octave Mirbeau), cheia de sofrimento e privação, que o levou a uma América decepcionante, onde analisou em pleno o novo mundo que lhe fora prometido.

Podemos falar de uma “perspectiva obscura” na obra de Hamsun. Mas seria precipitado explicá-lo como uma espécie de pessimismo escandinavo, fruto dos perolados fiordes nórdicos e das noites agitadas do Verão boreal. Nos romances de Hamsun o amor e a sensualidade estão sempre presentes. Este adora tudo o que o rodeia, tudo lhe dá algum significado, tanto é assim que não exagerávamos em afirmar que o amor é o real centro da sua obra.


Mas este amor é inseparável da visão trágica, pois as suas personagens debatem-se sempre não só com as suas limitações, mas também contra mentiras e falsidades. Como em Victoria, onde os amantes são pervertidos por uma sociedade na qual a carícia destrói os seus corpos, ou em Benoni e Rosa, nos quais o amor é uma força cruel sob cujo poder os corações raramente se encontram de acordo.

Mais, o amor é inseparável do ódio, tal como a alegria e a vontade de viver não podem ser separadas da consciência humana de fim. Nele, os sentimentos antagonistas baseiam-se um no outro sem jamais solidificarem, como as idades da vida se seguem uma à outra ao ritmo das estações. A complementaridade dos opostos.

Nascido em 1859, faleceu em 1952. Germanófilo desde os tempos de Bismarck, assim se manteve toda a vida. Foi o suficiente, em 1945, com 86 anos, para ser votado a um destino comparável ao de Ezra Pound: condenado a pagar ao Estado uma multa que o reduziu à pobreza, foi internado num hospital psiquiátrico por ter sido um “colaboracionista”.

Até hoje, na Noruega nenhuma rua nem nenhum edifício público foram baptizados com o seu nome, onde nunca foi sequer alvo de um selo comemorativo.

Contudo, não era um político, mas um músico da palavra. “A linguagem”, dizia, “deve cobrir todos os tipos de música”, o escritor deveria sempre procurar uma “palavra que vibre”, um termo exacto “que lacere o coração ao ponto de me fazer soluçar, tamanha a sua precisão”. Razão pela qual não escrevia “facilmente”, pelo contrário, escrevia com dificuldade, com dor. Para ele, escrever era uma forma de estar vivo.

Publicado originalmente no semanário O Diabo
10 de Janeiro, 2012.

Nº 4 - Outubro-Dezembro 2011 - Índice

A ÚLTIMA CULTURA:
Editorial
Flávio Gonçalves

A Balcanização do Sistema, Ernst Jünger e Os Dias do Fim
Tomislav Sunic

O Fim de Portugal e o Seu Futuro
Renato Epifânio

Sociopatologia, o ónus da Inversão social e subsequente Involução civilizacional e da Pessoa Humana
João Lino Santos

ACTUALIDADE:
Não Derretam os Escudos!
Rainer Daehnhardt

Bem-vindos à Europa do Capital
Basílio Martins

Carpe Diem, Ou Dos Princípios e da Sua Falta
Henrique Salles da Fonseca

"Geração Erraste"
João Filipe Pereira

Prossegue o Rapto de Europa
João Franco

O Mil Novecentos e Oitenta e Quatro chegou em 2011...
Roberto Bilro Mendes

A imigração, exército de reserva do capital
Alain de Benoist

RESENHA:
"A Ascensão de Salazar" de Ivens Ferraz
Daniel Nunes Mateus

Lifeforce (1985)
Rui Baptista

HISTÓRIA:
A Inovação Pedagógica da Companhia de Jesus na Modernidade
Fernanda Santos

Bandeirantes: A Canoa Contra o Cavalo
Alberto Buela

A descoberta portuguesa da “Grande Terra do Sul” e da Nova Zelândia
Kerry Bolton

Portugal do Integracionismo Imperial ao Etno-nacionalismo.
Pistas de investigação
Riccardo Marchi

Dos Barbosas e Silvas, Que Vieram do reino de Portugal a Esta Ilha de São Miguel
Carlos Melo Bento

O Integralismo Lusitano
Vítor Figueira Martins

O Que é História das Religiões
Leonardo Arantes Marques

Reflexões Sobre História de Arte - O problema dos Estilos
Alexandre Ribeiro dos Santos

CULTURA:
A Chegada de Corto Maltese a Portugal
Mário Casa Nova Martins

Expressionismo no Brasil
Jefferson Carvalho Jr.

Reconquistar Tudo: Identidade
Adriano Scianca

TRADIÇÃO:
Occultus Rex
Júlio Mendes Rodrigo

As Festividades de Solstício de Inverno nos Açores
Luís Couto

E Assim Nasce o Candomblé: Deuses na Diáspora ou a Reinvenção de uma Religião
João Ferreira Dias

A Doutrina da União Divina na Tradição Helénica
Claudio Mutti

Lar: O Fogo Central
Luiz Pontual

Medjugorje: o Culto de Nossa Senhora da Paz no século XXI
Sónia Pedro Sebastião

MUNDO:
Geopolítica da Luso-Brasilidade no pós-11 de Setembro de 2001
Sandra Maria Rodrigues Balão

Império ou República: de Joplin, no Missouri, a Cabul, no Afeganistão
James Petras

As Visões Perigosas: Portugal-Brasil
António Marques Bessa

Relatório Sobre a Reunião do Clube Bilderberg de 2011
Daniel Estulin

Compra imediata no estrangeiro: Amazon.com (internacional) e Clube de Leitores (Brasil).

Quinta-feira, 10 de Novembro de 2011

Mário Saa revisitado


Mário Casa Nova Martins - Mário Saa é uma figura da cultura portuguesa do século XX. Contudo, foi por largo tempo esquecida.

Se hoje é possível falar de Mário Saa, muito se deve, em primeiro lugar, à Imprensa Nacional – Casa da Moeda, que editou em Março de 2006 «Poesia e alguma prosa».

Antes, em Novembro de 2002, tinha sido editado um número duplo da revista «Águia – Folha Informativa dos Amigos do Concelho de Avis», n.ºs 6 e 7, sobre o escritor, mas, embora de interesse, não passou do âmbito local.

Nela, Ramiro Lopes assina o Editorial, João Rui de Sousa escreve «Quem foi Mário Saa? Subsídios para uma resposta». Segue-se uma entrevista com António Brás de Oliveira intitulada «Às voltas com o espólio de Mário Saa, vinte anos depois», António Ventura ensaia «A dimensão regionalista na obra de Mário Saa, «Mário Saa» por Fernando J. B. Martinho, «Mário Saa e o Ervedal» por Moura Júnior, J. Pinharanda Gomes redige «Mário Saa e o saber oculto», «Recordação e homenagem» por J. V. Namorado, «Mário Saa em Pêro Viegas – Alguns testemunhos», a entrevista com Américo M. Claudino com o Título «‘Fiz sempre questão de respeitar a vontade de Mário Saa’», Fundação Arquivo Paes Teles, Bibliografia de Mário Saa, e «Antologia Breve de Mário Saa – O investigador – O poeta».

Mais tarde, em Dezembro de 2007, surge a obra dedicada a Mário Saa. «XII Objectos do Itinerário de Mário Saa», editada pela Fundação Arquivo Paes Teles.

Tem textos e investigação de Elisabete J. Santos Pereira, colaboração de Quintino Lopes, Luísa Ratinho Freire e Teresa Lageira Fernandes, e desenho arqueológico de Hermínia Santos.

Os doze objectos referenciados são uma estatueta romana, uma fotografia de família, a máquina fotográfica, um livro «Biblioteca do Povo e das escolas», um Bilhete-Postal de Leite de Vasconcelos, o manuscrito do poema «Xácara do Infinito», o livro “As Grandes Vias da Lusitânia”, um cartaz de festas do Ervedal, um fragmento de tégua, o Diploma da Associação dos Arqueólogos Portugueses, um Bilhete-Postal de Fernando Pessoa e o estojo de secretária do Escritor. Termina o livro com um apontamento biográfico de Mário Saa e o historial da Fundação Arquivo Paes Teles.

Com o título «Itinerários Romanos do Alentejo» e subtítulo «Uma Releitura de «As Grandes Vias da Lusitânia – O Itinerário de Antonino Pio» de Mário Saa, cinquenta anos depois», é editado pelas Edições Colibri, com primeira edição em Novembro de 2008 e segunda em Abril de 2009, a obra de André Carneiro, onde o autor faz a leitura actual da obra de Mário Saa no que diz respeito ao Alentejo.

O primeiro número da «VIALIBVS, Revista de Cultura da Fundação Arquivo Paes Teles », sai em Junho de 2009.

Na Apresentação, por palavras de Paulo Jorge Chambel Guedes Freixo lê-se que “com ela abrimos um espaço dedicado à investigação e divulgação de estudos sobre Mário Saa e sobre o valioso património que nos legou através da Fundação Arquivo Paes Teles”.

Quanto ao nome da revista, segundo o Editorial a cargo de Elisabete Santos Pereira, “inspirámo-nos na inscrição de uma ara romana consagrada aos deuses das vias para dar nome a este projecto”, acrescentando, “VIALIBVS”, invoca, assim, os Lares Viales, os deuses de protecção das vias romanas, um vocábulo latino patente na ara encontrada por Mário Saa no decorrer da sua investigação sobre a Lusitânia”.

Com uma tiragem de meio milhar de exemplares, a revista “VIALIBVS” tem três textos: «Mário Saa e Fernando Pessoa – sinalizações de um encontro» de João Rui de Sousa, «A Atracção pelo universo de Camões numa perspectiva biografista» de Cândido Beirante e «O epistolário de Mário Saa: cartas de Hipólito da Costa Cabaça» de Elisabete J. Santos Pereira.

O segundo número da «VIALIBVS, Revista de Cultura da Fundação Arquivo Paes Teles » sai em Junho de 2010.

A Nota de abertura tem a assinatura da Presidente do Conselho de Administração da Fundação Paes Teles, Margarida Luzia Centeno da Costa Estevinha. O Editorial é assinado pela Coordenadora da Fundação Paes Teles, Elisabete J. Santos Pereira. Seguem-se os artigos «Os Lares Viales na Lusitânia» de Vasco Mantas, «Novos Elementos para o Estudo do Sítio Arqueológico da Ladeira do Ervedal – Resultados preliminares da primeira fase do projecto de investigação» de Ana Ribeiro, e «As Dedicatórias da Biblioteca de Mário Saa: redes intelectuais e científico-filosóficas da cultura portuguesa do século XX» de Elisabete J. Santos Pereira.

Outros números se aguardarão para o futuro.

Todavia, para a actualidade do pensamento e da obra de Mário de Saa, são fundamentais dois estudos. Cronologicamente, a dissertação de doutoramento de Américo Enes Monteiro «A Recepção da Obra de Friedrich Nietzsche na Vida Intelectual Portuguesa», onde o Autor estuda as influência de Nietzsche em Mário Saa e que é um preâmbulo ao seu pensamento, e a introdução ao livro «Mário Saa – Poesia e alguma prosa» intitulada «Mário Saa um Poeta do Modernismo» de João Rui de Sousa, são dois documentos de primeira importância para se situar e compreender toda a obra de Mário Saa.

Para Américo Enes Monteiro, Mário Saa, o poeta-filósofo, é um dos principais receptores da obra de Nietzsche, a par de Fernando Pessoa e Almada Negreiros. (282)

Mário Saa, escreve, “nos seus ensaios de cunho filosófico revela ter feito, numa linha nietzschiana, uma nítida opção pelo aristocratismo elitista e pelo Homem Supremo.” (297) E acrescenta que “as suas primeiras expressões literárias …, sobretudo as de cunho poético, …, estão profundamente marcadas pelo decadentismo e pelo neo-romantismo e veiculam o desencanto e um marcado pessimismo face à vida.” (297)

Em «Retratos de Poetas que Conheci», “João Gaspar Simões classifica-o de o mais ambíguo dos escritores modernistas” (297), e em «Líricas Portuguesas», “Jorge de Sena refere-o como “uma das figuras mais curiosas das letras contemporâneas.”” (297)

«O Evangelho de S. Vito», datado de 1917, é a obra de Mário de Sa onde é mais visível a influência de Frederico Nietzsche.

Escreve Américo Enes Monteiro que, “na sua maneira de ver [de Mário Saa], Nietzsche, longe de ser um louco, é um autor formidável, pois escreveu uma obra grandiosa e coerente. É essa grandeza e essa coerência que, por vezes, deixam no leitor uma impressão errada da loucura. Por isso Mário Saa, pela boca de S. Vito, põe-no de sobreaviso contra o perigo de tal confusão: “Contudo, meus irmãos, muitas vezes vos parecerá loucura onde há génio, mas isso não é loucura, é génio” [Evangelho de S. Vito, p. 82]” (300).

Segundo Américo Enes Monteiro, Mário Saa “leu e releu” e sublinhou abundantemente partes de «Assim falava Zaratrustra». E ter-se-á inspirado nos capítulos «Dos crentes em além mundos» e «Dos que desprezam os corpos» para escrever o «Evangelho de S. Vito». (301)

Sobre o Cristianismo, encontra-se em «A Invasão dos Judeus», p. 9 que “Jesus é “a síntese da decadência de todos os povos”, revela sintonia com Nietzsche e Fernando Pessoa, na sua concepção do Cristianismo como uma doutrina e uma civilização de cariz decadente”. (309)

Se em «O Evangelho de S. Vito», Mário Saa entende o conceito de Homem Supremo coincidente com o de Nietzsche em «Assim falava Zaratrustra», sem conotações rácicas, em «A Explicação do Homem», de 1928, já assim não é. “Aí o autor escreve que “o Homem Superior é a excitação dum indivíduo duma boa raça; (…) Afinal não há um Homem Superior, há raças Superiores! (…) Se a excitação é em indivíduo de raça inferior, produz o histérico inferior, produz o idiota.” [«A Explicação do Homem», p. 103]” (316)

Tal como em Fernando Pessoa, escreve Américo Enes Monteiro, “também Mário Saa está convicto de que, para que vingue o Homem Supremo, terá que se dar necessariamente a morte de Deus. Deus é o grande obstáculo ao acesso do homem à sua total emancipação. Deus e Homem Supremo são antíteses que não se deixam absorver em síntese de espécie alguma.” (321)

gTambém Mário Saa pretende apresentar-se ao leitor como o psicólogo da mulher, conhecedor das profundezas da alma feminina e das suas idiossincrasias.” (338). Como antes Américo Enes Monteiro abordara a rejeição do altruísmo e da compaixão por parte de Mário Saa (324).

Sobre o Estado, Mário Saa “elogia todo aquele que se insurge contra o Estado e as suas maquinações opressoras.” (347)

João Rui de Sousa divide o seu texto «Mário Saa, um poeta do modernismo» em vários capítulos. Começa com «O homem e a sua obra» (11), seguindo-se «Os «cadernos» e a sua importância» (24), subdividido este em «Serões alegres» (25), [Versos] (26), «Fel e mel» (26), «Harpejos» (27), «Pegadas» (27), «Ericeira» (29), «Doce enleio» (29), «Eme esse» (29), [Poemas da razão matemática] (30). Continua com «Uma conjugação com a modernidade» (32), dividida em sete partes assim numeradas, segue-se-lhe «Outras faces de um poliedro» (47), terminando com «Algumas palavras finais» (57).

São páginas densas, nas quais está um estudo sobre toda a obra de Mário Saa. E na segunda parte da obra estão recolhidas poesia e texto dispersos, bem como inéditos.

Mário Saa nasceu no dia de S. Vito. Mário Paes da Cunha e Sá (Caldas da Rainha, 18 de Junho de 1893 - Ervedal, 23 de Janeiro de 1971) é o seu nome completo. Estudou várias áreas do saber, e em várias escolas. Erudito, quis deixar o seu trabalho para o futuro, futuro que se materializou na Fundação Arquivo Paes Teles.

Foi um intelectual que marcou um tempo na cultura portuguesa. Tinha uma maneira muito própria de estar e de ser.

É antológica a descrição da visita que lhe fazem em Maio de 1959, António Manuel Couto Viana, Fernando Guedes, director da revista «Tempo Presente», João Manuel Pedra Soares, secretário da revista, e Caetano de Melo Beirão, em demanda de um inédito para o número inaugural da revista, editada no livro do poeta de Viana do Castelo «Coração Arquivista» (243 a 248), um texto escrito em Fevereiro de 1971.

Couto Viana tinha curiosidade em conhecer, como escreve, “Mário, o Breve», «Mário, o Louco», «Mário, o Inculto», que lera, em tempos de adolescência, nos volumes da Contemporâneae que tanto me entusiasmara pelo estilo sensacionalista” (244) “ E lá estava, num velho e pequeno automóvel, um vulto muito baixo e um tanto gordo, com uns restos de monóculo encravado na órbita direita – Mário Saa.” (244)

Descrita a casa, a sala em que foram recebidos e o ambiente, Couto Viana entra em pormenores. “Mas afastei de mim, pelo menos, a hipótese de ceia, recordando as anedotas postas a correr na Brasileira, a respeito da avareza do nosso anfitrião: os cinco cafés enviados pior Mário Saa para a mesa do Botto, quando este o considerava incapaz de pagar um que fosse; os vinte escudos negados à estroinice do jovem Carlos Queirós, pois o autor de A Invasão dos Judeusconfessava não ter dinheiro trocado e exibia, como justificação, um maço de notas de mil; etc. etc. no entanto, Mário Saa não se eximiu aos tradicionais deveres da hospitalidade e ofereceu-nos um cálice de vinho do Porto, que o guarda-costas sacou, canhestramente, de uma cristaleira. Mas, céus!, os cálices, de vidro grosso, vinham cobertos de uma densa camada de poeira que logo nos obstruiu a garganta e dificultou o convívio.” (245 e 246)

É necessário que se volte a ler Mário Saa. Se a sua poesia é celebrada, a sua prosa não lhe é inferior.

Todavia, hoje apenas está disponível o livro «Poesia e alguma prosa». Os outros livros apenas surgem, quando surgem, em alfarrabistas e a preços altíssimos. Assim sendo, não deveria a Fundação Arquivo Paes Teles questionar-se sobre a reedição, faseada e programada, das Obras de Mário Saa, porventura numa edição intitulada ‘Obras Completas’?

Quanto aos livros polémicos, «A Invasão dos Judeus», «O Evangelho de S. Vito» e «A Explicação do Homem», trilogia cuja leitura, e, quiçá, actualidade, não é de importância menor, mereciam breve quanto cuidada reedição.

Bibliografia
XIII Objectos do Itinerário de Mário Saa – Fundação Arquivo Paes Teles, AlemTudo Edições, Dezembro de 2007
Águia, Edição especial – N.ºs 6 e 7 – Novembro de 2002
Carneiro, André – Itinerários Romanos do Alentejo, Edições Colibri, 2.ª edição, Abril de 2009
Monteiro, Américo Enes – A Recepção da Obra de Friedrich Nietzsche na Vida Intelectual Portuguesa (1892-1939), Lello Editores, Outubro de 2000
Saa, Mário – Poesia e alguma prosa, Organização, introdução e notas de João Rui de Sousa, IN-CM, 2006
VIALIBVS – Revista de Cultura da Fundação Arquivo Paes Teles, n.ºs 1 e 2
Viana, António Manuel Couto – Coração Arquivista, Editorial Verbo, 1977, pgs 243 a 248

Bibliografia de Mário Saa
Livros e Folhetos
_ Evangelho de S.Vito (1917)
_ Portugal Cristão-Novo ou os Judeus na República (1921)
_ Camões no Maranhão (1922)
_ Tábua Genealógica da Varonia Vaz de Camões [Mapa] (1924)
_ A Invasão Dos Judeus (1925)
_ A Explicação do Homem: Através de uma auto explicação em 207 tábuas filosóficas (1928)
_ Origens do Bairro-Alto de Lisboa: Verdadeira notícia (1929)
_ Nós, os espanhóis (1930)
_ Proclamações à Pátria: Uma Aliança Luso-Catalã (1931?)
_ Proclamações à Pátria: Até ao Mar Cantábrico (1931)
_ Erridânia: A Geografia Mais Antiga do Ocidente (1936)
_ As Memórias Astrológicas de Camões e o Nascimento do Poeta em 23 de Janeiro de 1524 (1940), segunda edição em Dezembro de 1978
_ As Grandes Vias da Lusitânia - O Itinerário de Antonino Pio (6 Tomos; 1957-1967)
_ Poesia e alguma prosa (2006)
Organização de volumes
_ Poemas Heróicos / Simão Vaz de Camões; Org. e Pref. de Mário Saa (1921)

Fundação Arquivo Paes Teles
http://www.paesteles.org.pt/

in Finis Mundi nº 2, Abril-Junho, 2011.

Líbia, infra-estruturas civis sob ataque e a implacável guerra informativa


Leonid Savin - O presente trabalho surge das notas de viagem que compilei enquanto viajava na Líbia em guerra, observando de perto a situação na sua parte ocidental que se estende da fronteira com a Tunísia até Tripoli. Durante este processo, assisti à conferência internacional “Hands Off Libya!” no hotel Bab Al Bahr em Tripoli. O evento foi organizado pela Organização Nacional da Juventude Líbia e pela Fundação Stop The War, contando com a ajuda do Conselho Económico Social e Cultural da União Africana, do Conselho da Juventude Árabo-Africana, do Fórum da Juventude Africana Para a Paz e da União da Juventude Africana, tendo atraído delegados de partidos políticos e ONGs de 17 países. A conferência criou um grupo de contacto internacional encarregue de fornecer informação imparcial acerca da situação na Líbia à comunidade internacional, de mobilizar a opinião pública mundial e de equacionar várias opções para deter a agressão da NATO. A conferência foi inaugurada a 17 de Abril. Na véspera da abertura, os delegados passearam por Tripoli, visitando a Praça Verde onde diariamente se reúnem apoiantes pró-Khadafi, e inspeccionaram a residência de Khadafi, que foi recentemente alvo de um ataque aéreo da NATO (saliente-se, o local fora também bombardeado em 1986). Também testemunhamos as devastações causadas pelos ataques da NATO a um conjunto de outros locais. Os relatos da comunicação social de que os insurgentes na Líbia são ocasionalmente vítimas de fogo amigo por parte da Força Aérea da NATO confirmam indirectamente as alegações do governo líbio de que de facto a NATO tem como alvo infra-estruturas civis. O plano inicial da NATO para a ofensiva contra a Líbia colapsou de forma evidente, assim a aliança teve que mudar para a táctica que empregou contra a Jugoslávia, destruindo toda a gama de infra-estruturas do país e pondo toda a população civil sob pressão em vez de limitar os ataques às forças armadas envolvidas no combate…

Se o uso desta táctica persistir, presumivelmente o sistema único de abastecimento de água da Líbia, composto por reservatórios subterrâneos e uma extensa rede de túneis, será danificado. Desde o princípio, a NATO usou munições de urânio empobrecido contra a Líbia, embora os estudos confirmados das Nações Unidas sobre o impacto de armas similares na Sérvia e na Bósnia tenham revelado consideráveis e persistentes níveis de contaminação radioactiva.

Os sistemas de defesa aérea líbios estão situados por toda a Tripoli. De facto, um deles estava localizado precisamente ao lado do hotel que albergava a conferência. Tornam-se audíveis à noite quando têm início os raids aéreos da NATO. Uma parte da população civil da Líbia é também portadora de armas e ajuda o exército a patrulhar as ruas de Tripoli. O moral da população é patentemente alto, e se a NATO se decidir por uma ofensiva terrestre, sem dúvida que sofrerá sérias baixas.

Mesmo a parte da Líbia onde o apoio a Khadafi é praticamente uniforme é continuamente bombardeada pela guerra informativa. A Al Jazeera do Qatar, a CNN e a BBC inundam as audiências com críticas ao regime de Khadafi e - às claras ou implicitamente - expressam o seu apoio aos rebeldes, enquanto que aos meios de comunicação oficiais líbios lhes falta claramente o potencial para responder com uma campanha de proporções comparáveis. Campos de refugiados decorados com as bandeiras monárquicas dos rebeldes estão localizados na parte norte da fronteira entre a Líbia e a Tunísia, na proximidade do posto de controlo de Ras Ajedir, uma área que costumava ser controlada a pente fino pelas forças pró-Khadafi. Não está claro porque é que a Tunísia, que parece continuar a ter relações amistosas com Khadafi, se presta a alojar os seus adversários.

De acordo com relatos que neste momento são difíceis de verificar, os petroleiros que os rebeldes enviaram para estabelecer a credibilidade do seu controlo da situação na parte da Líbia que controlam foram na realidade abastecidos no Qatar. Os rebeldes conseguiram capturar um grande número de veículos blindados em depósitos do Exército, mas parecem não ter ideia de como os usar. Nem tampouco demonstram ter aptidão para assegurar condições de vida decentes nas regiões sob o seu controlo, onde a população local sofre permanentemente faltas de abastecimento eléctrico e de água, sendo que têm sido reportados casos frequentes de pilhagens. Há imagens de matanças de soldados indefesos do Exército de Khadafi, nas quais se incluem decapitações e imolações pelo fogo.

Apenas a NATO impede as forças de Khadafi de suprimirem a revolta num espaço de tempo relativamente curto. A principal via de trânsito líbia é uma auto-estrada costeira, onde os veículos blindados são de todo visíveis e facilmente se tornam presa dos raids aéreos da NATO. Em resultado disto, o Exército de Khadafi perdeu muitos dos seus veículos pesados, embora pela mesma razão os insurgentes não possam avançar pela auto-estrada, uma vez que ficariam vulneráveis ao fogo de artilharia. As dunas de areia que a envolvem provaram ser impenetráveis após uma série de tentativas de ataques efectuadas pelos rebeldes.

Numa manobra atempada, o governo líbio desconectou o acesso à Internet em todo o país para contrariar os esforços de manipulação da opinião pública com a ajuda das redes sociais. Neste momento as redes de telemóveis da Líbia estão sob o controlo absoluto do governo.

O papel dos operacionais da Al Qaeda nos acontecimentos que decorrem na Líbia é impossível de negar. Az Zawiyah, localizada apenas a 40 quilómetros a Oeste de Tripoli, foi a primeira cidade líbia a sofrer os massacres de grupos extremistas que a aterrorizaram durante um mês, enquanto a vida decorria com normalidade a apenas 10 quilómetros de distância. Após um período de incoerência inicial, a polícia e as forças armadas do governo empregaram a força para expulsar os terroristas da cidade, ainda hoje marcada pelos combates de então. A informação sobre tais factos é censurada na Líbia e no geral, tirar fotografias em qualquer ponto entre Tripoli e a fronteira com a Tunísia é proibido. A Al Qaeda controla ainda várias cidades a Este de Bengazi e não faz segredo de que planeia a instauração de um califado na área. Supostamente, os militantes da Al Qaeda infiltraram-se na Líbia a partir da Nigéria e do Chade.

No que diz respeito às áreas fronteiriças da Líbia, desde fins de Abril que o governo legítimo controla a maioria das fronteiras do país com o Egipto, o Sudão, a Nigéria e o Chade. A estes dois últimos não lhes interessará a queda do regime de Khadafi uma vez que a sua própria estabilidade depende da da Líbia, a qual serve não só como espinha dorsal da segurança regional como proporciona emprego em larga escala aos migrantes dos países vizinhos.

O Ministério dos Negócios Estrangeiros da Líbia alega que o conflito foi despoletado por uma conspiração de um grupo de actores políticos de primeiro plano no país. A fuga de vários destes para o Ocidente, onde seguramente detinham bem nutridas contas bancárias, torna a hipótese perfeitamente realista.

A conferência “Hands Off Libya!” aprovou uma declaração realçando o carácter ilegítimo da Conferência de Londres sobre a Líbia e do tristemente célebre Conselho Nacional de Transição líbio. A conferência expressou as suas reservas no que diz respeito à oferta de ajuda humanitária por parte de países da União Europeia e da NATO, uma vez que poderá tratar-se de um disfarce para fornecer armamento aos insurgentes.

Finalmente, não é despiciendo mencionar que os líbios ainda vêem os russos como amigos, embora a Rússia não tenha vetado a corrosiva Resolução 1973 do Conselho de Segurança das Nações Unidas. Podemos testemunhar essa atitude positiva dentro e fora de Tripoli, mesmo nos postos de controlo, tanto por parte dos civis como dos militares. Esperemos que a posição oficial da Rússia no que diz respeito à Líbia não venha a esbater esse sentimento.

in Finis Mundi nº 3, Julho-Setembro, 2011.
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