quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Mário Saa revisitado


Mário Casa Nova Martins - Mário Saa é uma figura da cultura portuguesa do século XX. Contudo, foi por largo tempo esquecida.

Se hoje é possível falar de Mário Saa, muito se deve, em primeiro lugar, à Imprensa Nacional – Casa da Moeda, que editou em Março de 2006 «Poesia e alguma prosa».

Antes, em Novembro de 2002, tinha sido editado um número duplo da revista «Águia – Folha Informativa dos Amigos do Concelho de Avis», n.ºs 6 e 7, sobre o escritor, mas, embora de interesse, não passou do âmbito local.

Nela, Ramiro Lopes assina o Editorial, João Rui de Sousa escreve «Quem foi Mário Saa? Subsídios para uma resposta». Segue-se uma entrevista com António Brás de Oliveira intitulada «Às voltas com o espólio de Mário Saa, vinte anos depois», António Ventura ensaia «A dimensão regionalista na obra de Mário Saa, «Mário Saa» por Fernando J. B. Martinho, «Mário Saa e o Ervedal» por Moura Júnior, J. Pinharanda Gomes redige «Mário Saa e o saber oculto», «Recordação e homenagem» por J. V. Namorado, «Mário Saa em Pêro Viegas – Alguns testemunhos», a entrevista com Américo M. Claudino com o Título «‘Fiz sempre questão de respeitar a vontade de Mário Saa’», Fundação Arquivo Paes Teles, Bibliografia de Mário Saa, e «Antologia Breve de Mário Saa – O investigador – O poeta».

Mais tarde, em Dezembro de 2007, surge a obra dedicada a Mário Saa. «XII Objectos do Itinerário de Mário Saa», editada pela Fundação Arquivo Paes Teles.

Tem textos e investigação de Elisabete J. Santos Pereira, colaboração de Quintino Lopes, Luísa Ratinho Freire e Teresa Lageira Fernandes, e desenho arqueológico de Hermínia Santos.

Os doze objectos referenciados são uma estatueta romana, uma fotografia de família, a máquina fotográfica, um livro «Biblioteca do Povo e das escolas», um Bilhete-Postal de Leite de Vasconcelos, o manuscrito do poema «Xácara do Infinito», o livro “As Grandes Vias da Lusitânia”, um cartaz de festas do Ervedal, um fragmento de tégua, o Diploma da Associação dos Arqueólogos Portugueses, um Bilhete-Postal de Fernando Pessoa e o estojo de secretária do Escritor. Termina o livro com um apontamento biográfico de Mário Saa e o historial da Fundação Arquivo Paes Teles.

Com o título «Itinerários Romanos do Alentejo» e subtítulo «Uma Releitura de «As Grandes Vias da Lusitânia – O Itinerário de Antonino Pio» de Mário Saa, cinquenta anos depois», é editado pelas Edições Colibri, com primeira edição em Novembro de 2008 e segunda em Abril de 2009, a obra de André Carneiro, onde o autor faz a leitura actual da obra de Mário Saa no que diz respeito ao Alentejo.

O primeiro número da «VIALIBVS, Revista de Cultura da Fundação Arquivo Paes Teles », sai em Junho de 2009.

Na Apresentação, por palavras de Paulo Jorge Chambel Guedes Freixo lê-se que “com ela abrimos um espaço dedicado à investigação e divulgação de estudos sobre Mário Saa e sobre o valioso património que nos legou através da Fundação Arquivo Paes Teles”.

Quanto ao nome da revista, segundo o Editorial a cargo de Elisabete Santos Pereira, “inspirámo-nos na inscrição de uma ara romana consagrada aos deuses das vias para dar nome a este projecto”, acrescentando, “VIALIBVS”, invoca, assim, os Lares Viales, os deuses de protecção das vias romanas, um vocábulo latino patente na ara encontrada por Mário Saa no decorrer da sua investigação sobre a Lusitânia”.

Com uma tiragem de meio milhar de exemplares, a revista “VIALIBVS” tem três textos: «Mário Saa e Fernando Pessoa – sinalizações de um encontro» de João Rui de Sousa, «A Atracção pelo universo de Camões numa perspectiva biografista» de Cândido Beirante e «O epistolário de Mário Saa: cartas de Hipólito da Costa Cabaça» de Elisabete J. Santos Pereira.

O segundo número da «VIALIBVS, Revista de Cultura da Fundação Arquivo Paes Teles » sai em Junho de 2010.

A Nota de abertura tem a assinatura da Presidente do Conselho de Administração da Fundação Paes Teles, Margarida Luzia Centeno da Costa Estevinha. O Editorial é assinado pela Coordenadora da Fundação Paes Teles, Elisabete J. Santos Pereira. Seguem-se os artigos «Os Lares Viales na Lusitânia» de Vasco Mantas, «Novos Elementos para o Estudo do Sítio Arqueológico da Ladeira do Ervedal – Resultados preliminares da primeira fase do projecto de investigação» de Ana Ribeiro, e «As Dedicatórias da Biblioteca de Mário Saa: redes intelectuais e científico-filosóficas da cultura portuguesa do século XX» de Elisabete J. Santos Pereira.

Outros números se aguardarão para o futuro.

Todavia, para a actualidade do pensamento e da obra de Mário de Saa, são fundamentais dois estudos. Cronologicamente, a dissertação de doutoramento de Américo Enes Monteiro «A Recepção da Obra de Friedrich Nietzsche na Vida Intelectual Portuguesa», onde o Autor estuda as influência de Nietzsche em Mário Saa e que é um preâmbulo ao seu pensamento, e a introdução ao livro «Mário Saa – Poesia e alguma prosa» intitulada «Mário Saa um Poeta do Modernismo» de João Rui de Sousa, são dois documentos de primeira importância para se situar e compreender toda a obra de Mário Saa.

Para Américo Enes Monteiro, Mário Saa, o poeta-filósofo, é um dos principais receptores da obra de Nietzsche, a par de Fernando Pessoa e Almada Negreiros. (282)

Mário Saa, escreve, “nos seus ensaios de cunho filosófico revela ter feito, numa linha nietzschiana, uma nítida opção pelo aristocratismo elitista e pelo Homem Supremo.” (297) E acrescenta que “as suas primeiras expressões literárias …, sobretudo as de cunho poético, …, estão profundamente marcadas pelo decadentismo e pelo neo-romantismo e veiculam o desencanto e um marcado pessimismo face à vida.” (297)

Em «Retratos de Poetas que Conheci», “João Gaspar Simões classifica-o de o mais ambíguo dos escritores modernistas” (297), e em «Líricas Portuguesas», “Jorge de Sena refere-o como “uma das figuras mais curiosas das letras contemporâneas.”” (297)

«O Evangelho de S. Vito», datado de 1917, é a obra de Mário de Sa onde é mais visível a influência de Frederico Nietzsche.

Escreve Américo Enes Monteiro que, “na sua maneira de ver [de Mário Saa], Nietzsche, longe de ser um louco, é um autor formidável, pois escreveu uma obra grandiosa e coerente. É essa grandeza e essa coerência que, por vezes, deixam no leitor uma impressão errada da loucura. Por isso Mário Saa, pela boca de S. Vito, põe-no de sobreaviso contra o perigo de tal confusão: “Contudo, meus irmãos, muitas vezes vos parecerá loucura onde há génio, mas isso não é loucura, é génio” [Evangelho de S. Vito, p. 82]” (300).

Segundo Américo Enes Monteiro, Mário Saa “leu e releu” e sublinhou abundantemente partes de «Assim falava Zaratrustra». E ter-se-á inspirado nos capítulos «Dos crentes em além mundos» e «Dos que desprezam os corpos» para escrever o «Evangelho de S. Vito». (301)

Sobre o Cristianismo, encontra-se em «A Invasão dos Judeus», p. 9 que “Jesus é “a síntese da decadência de todos os povos”, revela sintonia com Nietzsche e Fernando Pessoa, na sua concepção do Cristianismo como uma doutrina e uma civilização de cariz decadente”. (309)

Se em «O Evangelho de S. Vito», Mário Saa entende o conceito de Homem Supremo coincidente com o de Nietzsche em «Assim falava Zaratrustra», sem conotações rácicas, em «A Explicação do Homem», de 1928, já assim não é. “Aí o autor escreve que “o Homem Superior é a excitação dum indivíduo duma boa raça; (…) Afinal não há um Homem Superior, há raças Superiores! (…) Se a excitação é em indivíduo de raça inferior, produz o histérico inferior, produz o idiota.” [«A Explicação do Homem», p. 103]” (316)

Tal como em Fernando Pessoa, escreve Américo Enes Monteiro, “também Mário Saa está convicto de que, para que vingue o Homem Supremo, terá que se dar necessariamente a morte de Deus. Deus é o grande obstáculo ao acesso do homem à sua total emancipação. Deus e Homem Supremo são antíteses que não se deixam absorver em síntese de espécie alguma.” (321)

gTambém Mário Saa pretende apresentar-se ao leitor como o psicólogo da mulher, conhecedor das profundezas da alma feminina e das suas idiossincrasias.” (338). Como antes Américo Enes Monteiro abordara a rejeição do altruísmo e da compaixão por parte de Mário Saa (324).

Sobre o Estado, Mário Saa “elogia todo aquele que se insurge contra o Estado e as suas maquinações opressoras.” (347)

João Rui de Sousa divide o seu texto «Mário Saa, um poeta do modernismo» em vários capítulos. Começa com «O homem e a sua obra» (11), seguindo-se «Os «cadernos» e a sua importância» (24), subdividido este em «Serões alegres» (25), [Versos] (26), «Fel e mel» (26), «Harpejos» (27), «Pegadas» (27), «Ericeira» (29), «Doce enleio» (29), «Eme esse» (29), [Poemas da razão matemática] (30). Continua com «Uma conjugação com a modernidade» (32), dividida em sete partes assim numeradas, segue-se-lhe «Outras faces de um poliedro» (47), terminando com «Algumas palavras finais» (57).

São páginas densas, nas quais está um estudo sobre toda a obra de Mário Saa. E na segunda parte da obra estão recolhidas poesia e texto dispersos, bem como inéditos.

Mário Saa nasceu no dia de S. Vito. Mário Paes da Cunha e Sá (Caldas da Rainha, 18 de Junho de 1893 - Ervedal, 23 de Janeiro de 1971) é o seu nome completo. Estudou várias áreas do saber, e em várias escolas. Erudito, quis deixar o seu trabalho para o futuro, futuro que se materializou na Fundação Arquivo Paes Teles.

Foi um intelectual que marcou um tempo na cultura portuguesa. Tinha uma maneira muito própria de estar e de ser.

É antológica a descrição da visita que lhe fazem em Maio de 1959, António Manuel Couto Viana, Fernando Guedes, director da revista «Tempo Presente», João Manuel Pedra Soares, secretário da revista, e Caetano de Melo Beirão, em demanda de um inédito para o número inaugural da revista, editada no livro do poeta de Viana do Castelo «Coração Arquivista» (243 a 248), um texto escrito em Fevereiro de 1971.

Couto Viana tinha curiosidade em conhecer, como escreve, “Mário, o Breve», «Mário, o Louco», «Mário, o Inculto», que lera, em tempos de adolescência, nos volumes da Contemporâneae que tanto me entusiasmara pelo estilo sensacionalista” (244) “ E lá estava, num velho e pequeno automóvel, um vulto muito baixo e um tanto gordo, com uns restos de monóculo encravado na órbita direita – Mário Saa.” (244)

Descrita a casa, a sala em que foram recebidos e o ambiente, Couto Viana entra em pormenores. “Mas afastei de mim, pelo menos, a hipótese de ceia, recordando as anedotas postas a correr na Brasileira, a respeito da avareza do nosso anfitrião: os cinco cafés enviados pior Mário Saa para a mesa do Botto, quando este o considerava incapaz de pagar um que fosse; os vinte escudos negados à estroinice do jovem Carlos Queirós, pois o autor de A Invasão dos Judeusconfessava não ter dinheiro trocado e exibia, como justificação, um maço de notas de mil; etc. etc. no entanto, Mário Saa não se eximiu aos tradicionais deveres da hospitalidade e ofereceu-nos um cálice de vinho do Porto, que o guarda-costas sacou, canhestramente, de uma cristaleira. Mas, céus!, os cálices, de vidro grosso, vinham cobertos de uma densa camada de poeira que logo nos obstruiu a garganta e dificultou o convívio.” (245 e 246)

É necessário que se volte a ler Mário Saa. Se a sua poesia é celebrada, a sua prosa não lhe é inferior.

Todavia, hoje apenas está disponível o livro «Poesia e alguma prosa». Os outros livros apenas surgem, quando surgem, em alfarrabistas e a preços altíssimos. Assim sendo, não deveria a Fundação Arquivo Paes Teles questionar-se sobre a reedição, faseada e programada, das Obras de Mário Saa, porventura numa edição intitulada ‘Obras Completas’?

Quanto aos livros polémicos, «A Invasão dos Judeus», «O Evangelho de S. Vito» e «A Explicação do Homem», trilogia cuja leitura, e, quiçá, actualidade, não é de importância menor, mereciam breve quanto cuidada reedição.

Bibliografia
XIII Objectos do Itinerário de Mário Saa – Fundação Arquivo Paes Teles, AlemTudo Edições, Dezembro de 2007
Águia, Edição especial – N.ºs 6 e 7 – Novembro de 2002
Carneiro, André – Itinerários Romanos do Alentejo, Edições Colibri, 2.ª edição, Abril de 2009
Monteiro, Américo Enes – A Recepção da Obra de Friedrich Nietzsche na Vida Intelectual Portuguesa (1892-1939), Lello Editores, Outubro de 2000
Saa, Mário – Poesia e alguma prosa, Organização, introdução e notas de João Rui de Sousa, IN-CM, 2006
VIALIBVS – Revista de Cultura da Fundação Arquivo Paes Teles, n.ºs 1 e 2
Viana, António Manuel Couto – Coração Arquivista, Editorial Verbo, 1977, pgs 243 a 248

Bibliografia de Mário Saa
Livros e Folhetos
_ Evangelho de S.Vito (1917)
_ Portugal Cristão-Novo ou os Judeus na República (1921)
_ Camões no Maranhão (1922)
_ Tábua Genealógica da Varonia Vaz de Camões [Mapa] (1924)
_ A Invasão Dos Judeus (1925)
_ A Explicação do Homem: Através de uma auto explicação em 207 tábuas filosóficas (1928)
_ Origens do Bairro-Alto de Lisboa: Verdadeira notícia (1929)
_ Nós, os espanhóis (1930)
_ Proclamações à Pátria: Uma Aliança Luso-Catalã (1931?)
_ Proclamações à Pátria: Até ao Mar Cantábrico (1931)
_ Erridânia: A Geografia Mais Antiga do Ocidente (1936)
_ As Memórias Astrológicas de Camões e o Nascimento do Poeta em 23 de Janeiro de 1524 (1940), segunda edição em Dezembro de 1978
_ As Grandes Vias da Lusitânia - O Itinerário de Antonino Pio (6 Tomos; 1957-1967)
_ Poesia e alguma prosa (2006)
Organização de volumes
_ Poemas Heróicos / Simão Vaz de Camões; Org. e Pref. de Mário Saa (1921)

Fundação Arquivo Paes Teles
http://www.paesteles.org.pt/

in Finis Mundi nº 2, Abril-Junho, 2011.

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