quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Mário Saa revisitado


Mário Casa Nova Martins - Mário Saa é uma figura da cultura portuguesa do século XX. Contudo, foi por largo tempo esquecida.

Se hoje é possível falar de Mário Saa, muito se deve, em primeiro lugar, à Imprensa Nacional – Casa da Moeda, que editou em Março de 2006 «Poesia e alguma prosa».

Antes, em Novembro de 2002, tinha sido editado um número duplo da revista «Águia – Folha Informativa dos Amigos do Concelho de Avis», n.ºs 6 e 7, sobre o escritor, mas, embora de interesse, não passou do âmbito local.

Nela, Ramiro Lopes assina o Editorial, João Rui de Sousa escreve «Quem foi Mário Saa? Subsídios para uma resposta». Segue-se uma entrevista com António Brás de Oliveira intitulada «Às voltas com o espólio de Mário Saa, vinte anos depois», António Ventura ensaia «A dimensão regionalista na obra de Mário Saa, «Mário Saa» por Fernando J. B. Martinho, «Mário Saa e o Ervedal» por Moura Júnior, J. Pinharanda Gomes redige «Mário Saa e o saber oculto», «Recordação e homenagem» por J. V. Namorado, «Mário Saa em Pêro Viegas – Alguns testemunhos», a entrevista com Américo M. Claudino com o Título «‘Fiz sempre questão de respeitar a vontade de Mário Saa’», Fundação Arquivo Paes Teles, Bibliografia de Mário Saa, e «Antologia Breve de Mário Saa – O investigador – O poeta».

Mais tarde, em Dezembro de 2007, surge a obra dedicada a Mário Saa. «XII Objectos do Itinerário de Mário Saa», editada pela Fundação Arquivo Paes Teles.

Tem textos e investigação de Elisabete J. Santos Pereira, colaboração de Quintino Lopes, Luísa Ratinho Freire e Teresa Lageira Fernandes, e desenho arqueológico de Hermínia Santos.

Os doze objectos referenciados são uma estatueta romana, uma fotografia de família, a máquina fotográfica, um livro «Biblioteca do Povo e das escolas», um Bilhete-Postal de Leite de Vasconcelos, o manuscrito do poema «Xácara do Infinito», o livro “As Grandes Vias da Lusitânia”, um cartaz de festas do Ervedal, um fragmento de tégua, o Diploma da Associação dos Arqueólogos Portugueses, um Bilhete-Postal de Fernando Pessoa e o estojo de secretária do Escritor. Termina o livro com um apontamento biográfico de Mário Saa e o historial da Fundação Arquivo Paes Teles.

Com o título «Itinerários Romanos do Alentejo» e subtítulo «Uma Releitura de «As Grandes Vias da Lusitânia – O Itinerário de Antonino Pio» de Mário Saa, cinquenta anos depois», é editado pelas Edições Colibri, com primeira edição em Novembro de 2008 e segunda em Abril de 2009, a obra de André Carneiro, onde o autor faz a leitura actual da obra de Mário Saa no que diz respeito ao Alentejo.

O primeiro número da «VIALIBVS, Revista de Cultura da Fundação Arquivo Paes Teles », sai em Junho de 2009.

Na Apresentação, por palavras de Paulo Jorge Chambel Guedes Freixo lê-se que “com ela abrimos um espaço dedicado à investigação e divulgação de estudos sobre Mário Saa e sobre o valioso património que nos legou através da Fundação Arquivo Paes Teles”.

Quanto ao nome da revista, segundo o Editorial a cargo de Elisabete Santos Pereira, “inspirámo-nos na inscrição de uma ara romana consagrada aos deuses das vias para dar nome a este projecto”, acrescentando, “VIALIBVS”, invoca, assim, os Lares Viales, os deuses de protecção das vias romanas, um vocábulo latino patente na ara encontrada por Mário Saa no decorrer da sua investigação sobre a Lusitânia”.

Com uma tiragem de meio milhar de exemplares, a revista “VIALIBVS” tem três textos: «Mário Saa e Fernando Pessoa – sinalizações de um encontro» de João Rui de Sousa, «A Atracção pelo universo de Camões numa perspectiva biografista» de Cândido Beirante e «O epistolário de Mário Saa: cartas de Hipólito da Costa Cabaça» de Elisabete J. Santos Pereira.

O segundo número da «VIALIBVS, Revista de Cultura da Fundação Arquivo Paes Teles » sai em Junho de 2010.

A Nota de abertura tem a assinatura da Presidente do Conselho de Administração da Fundação Paes Teles, Margarida Luzia Centeno da Costa Estevinha. O Editorial é assinado pela Coordenadora da Fundação Paes Teles, Elisabete J. Santos Pereira. Seguem-se os artigos «Os Lares Viales na Lusitânia» de Vasco Mantas, «Novos Elementos para o Estudo do Sítio Arqueológico da Ladeira do Ervedal – Resultados preliminares da primeira fase do projecto de investigação» de Ana Ribeiro, e «As Dedicatórias da Biblioteca de Mário Saa: redes intelectuais e científico-filosóficas da cultura portuguesa do século XX» de Elisabete J. Santos Pereira.

Outros números se aguardarão para o futuro.

Todavia, para a actualidade do pensamento e da obra de Mário de Saa, são fundamentais dois estudos. Cronologicamente, a dissertação de doutoramento de Américo Enes Monteiro «A Recepção da Obra de Friedrich Nietzsche na Vida Intelectual Portuguesa», onde o Autor estuda as influência de Nietzsche em Mário Saa e que é um preâmbulo ao seu pensamento, e a introdução ao livro «Mário Saa – Poesia e alguma prosa» intitulada «Mário Saa um Poeta do Modernismo» de João Rui de Sousa, são dois documentos de primeira importância para se situar e compreender toda a obra de Mário Saa.

Para Américo Enes Monteiro, Mário Saa, o poeta-filósofo, é um dos principais receptores da obra de Nietzsche, a par de Fernando Pessoa e Almada Negreiros. (282)

Mário Saa, escreve, “nos seus ensaios de cunho filosófico revela ter feito, numa linha nietzschiana, uma nítida opção pelo aristocratismo elitista e pelo Homem Supremo.” (297) E acrescenta que “as suas primeiras expressões literárias …, sobretudo as de cunho poético, …, estão profundamente marcadas pelo decadentismo e pelo neo-romantismo e veiculam o desencanto e um marcado pessimismo face à vida.” (297)

Em «Retratos de Poetas que Conheci», “João Gaspar Simões classifica-o de o mais ambíguo dos escritores modernistas” (297), e em «Líricas Portuguesas», “Jorge de Sena refere-o como “uma das figuras mais curiosas das letras contemporâneas.”” (297)

«O Evangelho de S. Vito», datado de 1917, é a obra de Mário de Sa onde é mais visível a influência de Frederico Nietzsche.

Escreve Américo Enes Monteiro que, “na sua maneira de ver [de Mário Saa], Nietzsche, longe de ser um louco, é um autor formidável, pois escreveu uma obra grandiosa e coerente. É essa grandeza e essa coerência que, por vezes, deixam no leitor uma impressão errada da loucura. Por isso Mário Saa, pela boca de S. Vito, põe-no de sobreaviso contra o perigo de tal confusão: “Contudo, meus irmãos, muitas vezes vos parecerá loucura onde há génio, mas isso não é loucura, é génio” [Evangelho de S. Vito, p. 82]” (300).

Segundo Américo Enes Monteiro, Mário Saa “leu e releu” e sublinhou abundantemente partes de «Assim falava Zaratrustra». E ter-se-á inspirado nos capítulos «Dos crentes em além mundos» e «Dos que desprezam os corpos» para escrever o «Evangelho de S. Vito». (301)

Sobre o Cristianismo, encontra-se em «A Invasão dos Judeus», p. 9 que “Jesus é “a síntese da decadência de todos os povos”, revela sintonia com Nietzsche e Fernando Pessoa, na sua concepção do Cristianismo como uma doutrina e uma civilização de cariz decadente”. (309)

Se em «O Evangelho de S. Vito», Mário Saa entende o conceito de Homem Supremo coincidente com o de Nietzsche em «Assim falava Zaratrustra», sem conotações rácicas, em «A Explicação do Homem», de 1928, já assim não é. “Aí o autor escreve que “o Homem Superior é a excitação dum indivíduo duma boa raça; (…) Afinal não há um Homem Superior, há raças Superiores! (…) Se a excitação é em indivíduo de raça inferior, produz o histérico inferior, produz o idiota.” [«A Explicação do Homem», p. 103]” (316)

Tal como em Fernando Pessoa, escreve Américo Enes Monteiro, “também Mário Saa está convicto de que, para que vingue o Homem Supremo, terá que se dar necessariamente a morte de Deus. Deus é o grande obstáculo ao acesso do homem à sua total emancipação. Deus e Homem Supremo são antíteses que não se deixam absorver em síntese de espécie alguma.” (321)

gTambém Mário Saa pretende apresentar-se ao leitor como o psicólogo da mulher, conhecedor das profundezas da alma feminina e das suas idiossincrasias.” (338). Como antes Américo Enes Monteiro abordara a rejeição do altruísmo e da compaixão por parte de Mário Saa (324).

Sobre o Estado, Mário Saa “elogia todo aquele que se insurge contra o Estado e as suas maquinações opressoras.” (347)

João Rui de Sousa divide o seu texto «Mário Saa, um poeta do modernismo» em vários capítulos. Começa com «O homem e a sua obra» (11), seguindo-se «Os «cadernos» e a sua importância» (24), subdividido este em «Serões alegres» (25), [Versos] (26), «Fel e mel» (26), «Harpejos» (27), «Pegadas» (27), «Ericeira» (29), «Doce enleio» (29), «Eme esse» (29), [Poemas da razão matemática] (30). Continua com «Uma conjugação com a modernidade» (32), dividida em sete partes assim numeradas, segue-se-lhe «Outras faces de um poliedro» (47), terminando com «Algumas palavras finais» (57).

São páginas densas, nas quais está um estudo sobre toda a obra de Mário Saa. E na segunda parte da obra estão recolhidas poesia e texto dispersos, bem como inéditos.

Mário Saa nasceu no dia de S. Vito. Mário Paes da Cunha e Sá (Caldas da Rainha, 18 de Junho de 1893 - Ervedal, 23 de Janeiro de 1971) é o seu nome completo. Estudou várias áreas do saber, e em várias escolas. Erudito, quis deixar o seu trabalho para o futuro, futuro que se materializou na Fundação Arquivo Paes Teles.

Foi um intelectual que marcou um tempo na cultura portuguesa. Tinha uma maneira muito própria de estar e de ser.

É antológica a descrição da visita que lhe fazem em Maio de 1959, António Manuel Couto Viana, Fernando Guedes, director da revista «Tempo Presente», João Manuel Pedra Soares, secretário da revista, e Caetano de Melo Beirão, em demanda de um inédito para o número inaugural da revista, editada no livro do poeta de Viana do Castelo «Coração Arquivista» (243 a 248), um texto escrito em Fevereiro de 1971.

Couto Viana tinha curiosidade em conhecer, como escreve, “Mário, o Breve», «Mário, o Louco», «Mário, o Inculto», que lera, em tempos de adolescência, nos volumes da Contemporâneae que tanto me entusiasmara pelo estilo sensacionalista” (244) “ E lá estava, num velho e pequeno automóvel, um vulto muito baixo e um tanto gordo, com uns restos de monóculo encravado na órbita direita – Mário Saa.” (244)

Descrita a casa, a sala em que foram recebidos e o ambiente, Couto Viana entra em pormenores. “Mas afastei de mim, pelo menos, a hipótese de ceia, recordando as anedotas postas a correr na Brasileira, a respeito da avareza do nosso anfitrião: os cinco cafés enviados pior Mário Saa para a mesa do Botto, quando este o considerava incapaz de pagar um que fosse; os vinte escudos negados à estroinice do jovem Carlos Queirós, pois o autor de A Invasão dos Judeusconfessava não ter dinheiro trocado e exibia, como justificação, um maço de notas de mil; etc. etc. no entanto, Mário Saa não se eximiu aos tradicionais deveres da hospitalidade e ofereceu-nos um cálice de vinho do Porto, que o guarda-costas sacou, canhestramente, de uma cristaleira. Mas, céus!, os cálices, de vidro grosso, vinham cobertos de uma densa camada de poeira que logo nos obstruiu a garganta e dificultou o convívio.” (245 e 246)

É necessário que se volte a ler Mário Saa. Se a sua poesia é celebrada, a sua prosa não lhe é inferior.

Todavia, hoje apenas está disponível o livro «Poesia e alguma prosa». Os outros livros apenas surgem, quando surgem, em alfarrabistas e a preços altíssimos. Assim sendo, não deveria a Fundação Arquivo Paes Teles questionar-se sobre a reedição, faseada e programada, das Obras de Mário Saa, porventura numa edição intitulada ‘Obras Completas’?

Quanto aos livros polémicos, «A Invasão dos Judeus», «O Evangelho de S. Vito» e «A Explicação do Homem», trilogia cuja leitura, e, quiçá, actualidade, não é de importância menor, mereciam breve quanto cuidada reedição.

Bibliografia
XIII Objectos do Itinerário de Mário Saa – Fundação Arquivo Paes Teles, AlemTudo Edições, Dezembro de 2007
Águia, Edição especial – N.ºs 6 e 7 – Novembro de 2002
Carneiro, André – Itinerários Romanos do Alentejo, Edições Colibri, 2.ª edição, Abril de 2009
Monteiro, Américo Enes – A Recepção da Obra de Friedrich Nietzsche na Vida Intelectual Portuguesa (1892-1939), Lello Editores, Outubro de 2000
Saa, Mário – Poesia e alguma prosa, Organização, introdução e notas de João Rui de Sousa, IN-CM, 2006
VIALIBVS – Revista de Cultura da Fundação Arquivo Paes Teles, n.ºs 1 e 2
Viana, António Manuel Couto – Coração Arquivista, Editorial Verbo, 1977, pgs 243 a 248

Bibliografia de Mário Saa
Livros e Folhetos
_ Evangelho de S.Vito (1917)
_ Portugal Cristão-Novo ou os Judeus na República (1921)
_ Camões no Maranhão (1922)
_ Tábua Genealógica da Varonia Vaz de Camões [Mapa] (1924)
_ A Invasão Dos Judeus (1925)
_ A Explicação do Homem: Através de uma auto explicação em 207 tábuas filosóficas (1928)
_ Origens do Bairro-Alto de Lisboa: Verdadeira notícia (1929)
_ Nós, os espanhóis (1930)
_ Proclamações à Pátria: Uma Aliança Luso-Catalã (1931?)
_ Proclamações à Pátria: Até ao Mar Cantábrico (1931)
_ Erridânia: A Geografia Mais Antiga do Ocidente (1936)
_ As Memórias Astrológicas de Camões e o Nascimento do Poeta em 23 de Janeiro de 1524 (1940), segunda edição em Dezembro de 1978
_ As Grandes Vias da Lusitânia - O Itinerário de Antonino Pio (6 Tomos; 1957-1967)
_ Poesia e alguma prosa (2006)
Organização de volumes
_ Poemas Heróicos / Simão Vaz de Camões; Org. e Pref. de Mário Saa (1921)

Fundação Arquivo Paes Teles
http://www.paesteles.org.pt/

in Finis Mundi nº 2, Abril-Junho, 2011.

Líbia, infra-estruturas civis sob ataque e a implacável guerra informativa


Leonid Savin - O presente trabalho surge das notas de viagem que compilei enquanto viajava na Líbia em guerra, observando de perto a situação na sua parte ocidental que se estende da fronteira com a Tunísia até Tripoli. Durante este processo, assisti à conferência internacional “Hands Off Libya!” no hotel Bab Al Bahr em Tripoli. O evento foi organizado pela Organização Nacional da Juventude Líbia e pela Fundação Stop The War, contando com a ajuda do Conselho Económico Social e Cultural da União Africana, do Conselho da Juventude Árabo-Africana, do Fórum da Juventude Africana Para a Paz e da União da Juventude Africana, tendo atraído delegados de partidos políticos e ONGs de 17 países. A conferência criou um grupo de contacto internacional encarregue de fornecer informação imparcial acerca da situação na Líbia à comunidade internacional, de mobilizar a opinião pública mundial e de equacionar várias opções para deter a agressão da NATO. A conferência foi inaugurada a 17 de Abril. Na véspera da abertura, os delegados passearam por Tripoli, visitando a Praça Verde onde diariamente se reúnem apoiantes pró-Khadafi, e inspeccionaram a residência de Khadafi, que foi recentemente alvo de um ataque aéreo da NATO (saliente-se, o local fora também bombardeado em 1986). Também testemunhamos as devastações causadas pelos ataques da NATO a um conjunto de outros locais. Os relatos da comunicação social de que os insurgentes na Líbia são ocasionalmente vítimas de fogo amigo por parte da Força Aérea da NATO confirmam indirectamente as alegações do governo líbio de que de facto a NATO tem como alvo infra-estruturas civis. O plano inicial da NATO para a ofensiva contra a Líbia colapsou de forma evidente, assim a aliança teve que mudar para a táctica que empregou contra a Jugoslávia, destruindo toda a gama de infra-estruturas do país e pondo toda a população civil sob pressão em vez de limitar os ataques às forças armadas envolvidas no combate…

Se o uso desta táctica persistir, presumivelmente o sistema único de abastecimento de água da Líbia, composto por reservatórios subterrâneos e uma extensa rede de túneis, será danificado. Desde o princípio, a NATO usou munições de urânio empobrecido contra a Líbia, embora os estudos confirmados das Nações Unidas sobre o impacto de armas similares na Sérvia e na Bósnia tenham revelado consideráveis e persistentes níveis de contaminação radioactiva.

Os sistemas de defesa aérea líbios estão situados por toda a Tripoli. De facto, um deles estava localizado precisamente ao lado do hotel que albergava a conferência. Tornam-se audíveis à noite quando têm início os raids aéreos da NATO. Uma parte da população civil da Líbia é também portadora de armas e ajuda o exército a patrulhar as ruas de Tripoli. O moral da população é patentemente alto, e se a NATO se decidir por uma ofensiva terrestre, sem dúvida que sofrerá sérias baixas.

Mesmo a parte da Líbia onde o apoio a Khadafi é praticamente uniforme é continuamente bombardeada pela guerra informativa. A Al Jazeera do Qatar, a CNN e a BBC inundam as audiências com críticas ao regime de Khadafi e - às claras ou implicitamente - expressam o seu apoio aos rebeldes, enquanto que aos meios de comunicação oficiais líbios lhes falta claramente o potencial para responder com uma campanha de proporções comparáveis. Campos de refugiados decorados com as bandeiras monárquicas dos rebeldes estão localizados na parte norte da fronteira entre a Líbia e a Tunísia, na proximidade do posto de controlo de Ras Ajedir, uma área que costumava ser controlada a pente fino pelas forças pró-Khadafi. Não está claro porque é que a Tunísia, que parece continuar a ter relações amistosas com Khadafi, se presta a alojar os seus adversários.

De acordo com relatos que neste momento são difíceis de verificar, os petroleiros que os rebeldes enviaram para estabelecer a credibilidade do seu controlo da situação na parte da Líbia que controlam foram na realidade abastecidos no Qatar. Os rebeldes conseguiram capturar um grande número de veículos blindados em depósitos do Exército, mas parecem não ter ideia de como os usar. Nem tampouco demonstram ter aptidão para assegurar condições de vida decentes nas regiões sob o seu controlo, onde a população local sofre permanentemente faltas de abastecimento eléctrico e de água, sendo que têm sido reportados casos frequentes de pilhagens. Há imagens de matanças de soldados indefesos do Exército de Khadafi, nas quais se incluem decapitações e imolações pelo fogo.

Apenas a NATO impede as forças de Khadafi de suprimirem a revolta num espaço de tempo relativamente curto. A principal via de trânsito líbia é uma auto-estrada costeira, onde os veículos blindados são de todo visíveis e facilmente se tornam presa dos raids aéreos da NATO. Em resultado disto, o Exército de Khadafi perdeu muitos dos seus veículos pesados, embora pela mesma razão os insurgentes não possam avançar pela auto-estrada, uma vez que ficariam vulneráveis ao fogo de artilharia. As dunas de areia que a envolvem provaram ser impenetráveis após uma série de tentativas de ataques efectuadas pelos rebeldes.

Numa manobra atempada, o governo líbio desconectou o acesso à Internet em todo o país para contrariar os esforços de manipulação da opinião pública com a ajuda das redes sociais. Neste momento as redes de telemóveis da Líbia estão sob o controlo absoluto do governo.

O papel dos operacionais da Al Qaeda nos acontecimentos que decorrem na Líbia é impossível de negar. Az Zawiyah, localizada apenas a 40 quilómetros a Oeste de Tripoli, foi a primeira cidade líbia a sofrer os massacres de grupos extremistas que a aterrorizaram durante um mês, enquanto a vida decorria com normalidade a apenas 10 quilómetros de distância. Após um período de incoerência inicial, a polícia e as forças armadas do governo empregaram a força para expulsar os terroristas da cidade, ainda hoje marcada pelos combates de então. A informação sobre tais factos é censurada na Líbia e no geral, tirar fotografias em qualquer ponto entre Tripoli e a fronteira com a Tunísia é proibido. A Al Qaeda controla ainda várias cidades a Este de Bengazi e não faz segredo de que planeia a instauração de um califado na área. Supostamente, os militantes da Al Qaeda infiltraram-se na Líbia a partir da Nigéria e do Chade.

No que diz respeito às áreas fronteiriças da Líbia, desde fins de Abril que o governo legítimo controla a maioria das fronteiras do país com o Egipto, o Sudão, a Nigéria e o Chade. A estes dois últimos não lhes interessará a queda do regime de Khadafi uma vez que a sua própria estabilidade depende da da Líbia, a qual serve não só como espinha dorsal da segurança regional como proporciona emprego em larga escala aos migrantes dos países vizinhos.

O Ministério dos Negócios Estrangeiros da Líbia alega que o conflito foi despoletado por uma conspiração de um grupo de actores políticos de primeiro plano no país. A fuga de vários destes para o Ocidente, onde seguramente detinham bem nutridas contas bancárias, torna a hipótese perfeitamente realista.

A conferência “Hands Off Libya!” aprovou uma declaração realçando o carácter ilegítimo da Conferência de Londres sobre a Líbia e do tristemente célebre Conselho Nacional de Transição líbio. A conferência expressou as suas reservas no que diz respeito à oferta de ajuda humanitária por parte de países da União Europeia e da NATO, uma vez que poderá tratar-se de um disfarce para fornecer armamento aos insurgentes.

Finalmente, não é despiciendo mencionar que os líbios ainda vêem os russos como amigos, embora a Rússia não tenha vetado a corrosiva Resolução 1973 do Conselho de Segurança das Nações Unidas. Podemos testemunhar essa atitude positiva dentro e fora de Tripoli, mesmo nos postos de controlo, tanto por parte dos civis como dos militares. Esperemos que a posição oficial da Rússia no que diz respeito à Líbia não venha a esbater esse sentimento.

in Finis Mundi nº 3, Julho-Setembro, 2011.

Império ou República: de Joplin, no Missouri, a Cabul, no Afeganistão


James Petras - A 29 de Maio de 2011 o presidente Obama visitou Joplin, no Missouri, o local de um devastador tornado que matou 140 pessoas dizendo que era uma ´”tragédia” terrível. Mas foram estas mortes o resultado inevitável de “circunstâncias naturais” para lá do alcance da intervenção humana?

Coincidentemente na mesma semana o presidente afegão, Karzai, condenou o assassinato de uma família de 14 pessoas por um caça bombardeiro da NATO, somando-se ao total de várias centenas de mortos até à data, só este ano, e a milhares ao longo desta década.

A relação entre as mortes civis em Joplin e no Afeganistão suscita questões fundamentais acerca das prioridades, personalidade e direcção do império americano e do futuro da república americana.

Geografia dos tornados

Todos os anos pelo menos 20 grandes tornados violentos - com ventos que excedem as duzentas milhas por hora - atingem “a rota dos tornados” e não só, incluindo o Texas central, o norte do Iowa, o Kansas central, o Nebraska, o Ohio ocidental, o Missouri, o Indiana, o Mississipi, o Louisiana e o Alabama. Todos os anos pelo menos 60 pessoas morrem e várias centenas ficam feridas com maior ou menor gravidade. Este ano, durante o mês de Maio de 2011, já morreram mais de 519, 25% dos quais viviam em roullotes, cerca de três vezes mais do que aqueles que habitavam em casas convencionais.

Por outras palavras, estas mortes devidas aos tornados são previsíveis, anuais, em regiões específicas e incidem mais em lares de baixos rendimentos. As agências governamentais e os académicos compilaram dados e mapas cronológicos cartografando a rota, frequência e impacto dos tornados.

A informação acerca das características dos tornados assassinos é abundante. Não obstante o número de mortes aumenta de ano para ano. O medo e a insegurança assolam as regiões mais susceptíveis à violência dos ventos, ao mesmo tempo que o Congresso e a Casa Branca aumentaram o pessoal e o financiamento da “segurança interna” vinte vezes no decorrer da década. O corrente orçamento é de mais de 180 mil milhões de dólares. Se lhe somarmos as mortes causadas por outros desastres naturais como as cheias de Nova Orleães, o número de mortes é chocante. Como é que se explica esta relação perversa entre o gigantesco financiamento público da “segurança interna” e a acrescida insegurança de americanos vulneráveis em zonas de perigo claramente identificadas?

O motivo é claro: a “segurança interna” (SI) é um termo da novilíngua orwelliana. A agência não se preocupa com a segurança doméstica, civil, americana. A SI faz parte de uma resposta militar-policial a imaginadas ameaças externas, que não se materializaram ou, pelo menos, não produziram mortes comparáveis aos tornados e cheias dos últimos 11 anos.

A SI gasta milhares de milhões e emprega milhares para investigar, espiar e assediar cidadãos que estão empenhados em actividades legais sob o ponto de vista constitucional. A SI e o Pentágono gastam dezenas de milhares de milhões em infra-estruturas no estrangeiro - edifícios, bases, campos - e mais de novecentos milhares de milhões em armas. A SI e o Departamento da Defesa usam a força militar para intervir em todo o mundo através de operações às claras, ou clandestinas.

Para precisar, a SI intervém no estrangeiro de forma desproporcional, atacando alvos civis, ao mesmo tempo que não consegue empenhar-se em proteger civis americanos no próprio país, deixados indefesos perante desastres naturais previsíveis.

As violentas e continuadas operações no estrangeiro da Segurança Interna e do Pentágono são rejeitadas e vistas como uma intervenção imperial hostil pelos civis dos países que sofrem os seus efeitos adversos. Por contraste, os cidadãos indefesos nos Estados Unidos acolheriam de bom grado uma intervenção em larga escala que tomasse a forma de abrigos comunitários, que providenciassem sobrevivência, segurança, protecção vital e ajuda financeira para a reconstrução das suas vidas. Para além disso, os gastos do Pentágono e da SI em infra-estruturas no estrangeiro, bases e bombas, resulta em défice, enquanto que investimentos em abrigos contra tornados e cheias estimulariam a criação de empregos, o crescimento e o investimento nos Estados Unidos.

A actual actividade da SI destrói vidas no estrangeiro e negligencia a sobrevivência doméstica: nada tem que ver com a nossa “segurança” e ainda menos é “interna”. Cinco porcento do orçamento da Segurança Interna teria evitado muita da tragédia de Joplin (e ter-nos-ia salvo da oratória gasosa de Obama!) bem como as outras 400 mortes provocadas pela colheita de tornados deste ano.

Bases sistémicas da negligência doméstica perpétua

A morta às mãos de eventos “naturais” coloca uma questão política fundamental: porque é que o orçamento da SI e do Pentágono é direccionado para o estrangeiro, para actividade militar destrutiva e desproporcional em vez de para actividade defensiva, doméstica, construtiva a fim de proteger vidas americanas e a actividade económica produtiva?

O problema é sistémico e por tal não é devido a uma qualquer falha pessoal ou idiossincrasia política do momento. As estruturas da economia dos Estados Unidos e as instituições militares são orientadas “para fora” a fim de conquistar mercados financeiros estrangeiros e construir um império militar. A ideologia que conforma os decisores políticos estratégicos é de inspiração imperial e não de inspiração republicana: não falam em desenvolver e aprofundar a economia e a segurança da região centro-oeste dos EUA. Todos e cada um dos membros da elite empresarial e política falam de liderança “mundial” ou “global” - um eufemismo tenuamente velado para sancionar o domínio mundial. Dentro dos parâmetros imperiais todo o orçamento da “segurança” é direccionado para a manutenção da supremacia militar ofensiva. Não admira que haja um declínio aprofundado em todas as esferas da segurança doméstica - natural, social, pessoal, na saúde e no emprego - um processo continuado que suscita pouco debate público. A única excepção é quando as ameaças à segurança colidem mais directa e forçosamente com um sector significativo da população. Por exemplo, note-se a tempestade de protestos por parte daqueles directamente afectados quando os políticos quiseram privatizar a Segurança Social e a Medicare.

Contudo, durante os últimos trinta anos todo o espectro político, os dois partidos, o Congresso e a Casa Branca, criaram um consenso artificial no qual guerras no estrangeiro, ajuda externa a patronos (Israel) e clientes (Paquistão e Egipto), absorver a grande percentagem dos gastos orçamentais. Nenhuma liderança político-económica se apresentou a fim de articular a conexão óbvia entre a expansão global e a decadência doméstica; para declarar forçosamente que a deterioração da República é o produto directo da canalização de vastos recursos para a criação de um Império militar e económico. Quem na Wall Street de Nova Iorque ou no Pentágono de Washington irá alguma vez dar uma vista de olhos ou tomar em consideração um “plano de segurança” no que diz respeito à geografia das catástrofes - a rota dos tornados que cobre uma dúzia de Estados e as cheias e mortes que assolam as terras baixas do Montana ao Louisiana?

Ouve, América, a sua mensagem é clara e audível

As pequenas cidades e os parques de roullotes não contam! Têm a vossa segunda emenda (o direito a usar armas), têm o vosso “pequeno governo”, e têm as vossas bandeiras: “ondeiem-nas e chorem” enquanto os tornados vos destroem as casas e os vossos filhos e filhas regressam enrolados em bandeiras ao som do hino de batalha do Império!

Conclusão

Poderemos argumentar que abrigos comunitários contra as tempestades não arruinarão o Tesouro ou abaterão o Império. Mais precisamente, a sua ausência, da agenda política local, estatal e federal, é emblemática da total subordinação da América doméstica à Washington imperial. O “custo” da construção de abrigos comunitários nas zonas comercias e nos parques de roullotes em Joplin, no Missouri, é menor que um posto de treino avançado regional em Kandahar, no Afeganistão. Não se trata de uma questão de dinheiro.

Conquistar aldeias afegãs aumenta o prestígio dos generais, do Estado Maior das Forças Armadas e dos funcionários da NATO. Será que salvar 145 vidas em Joplin, no Missouri, se lhe pode equivaler em termos de política global ou em termos da política de liderança imperial? No Afeganistão, Washington constrói inúmeros abrigos e bunkers à prova de bomba. No que aos americanos que vivem na rota dos tornados e nas planícies sujeitas a cheias do Mississipi diz respeito, cada um que se arranje como puder.

Quando ouvir o aviso de tornado, é lá consigo. Enquanto americano livre e orgulhoso bem pode arranjar uma pedra sob a qual se esconder e rezar: o Governo Federal e a Segurança Interna têm a guerra contra o terror, global e sem fim à vista, para travar e não estão para ser incomodados com lares de terceira idade em Joplin, no Missouri, na rota de um tornado.

Exageramos: Obama chegará de jacto e discursará perante as câmeras em termos solenes, acerca da “tragédia” e da “coragem” da população de Joplin… mas será que algum político local se erguerá e dirá a verdade ao poder? Muitas destas mortes, e muitas outras mais por vir, são evitáveis; numa República Americana Democrática, o governo “intervém” para providenciar protecção, saúde e emprego para a sua população.

Entretanto, enquanto o Império continua a crescer vai destruindo o seu próprio povo, tal como a porca que devora os seus próprios filhos.

in Finis Mundi nº 4, Outubro-Dezembro, 2011.

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Movimento Internacional Lusófono

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Instituto de Altos Estudos em Geopolítica e Ciências Auxiliares

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